Fauna no entorno de Furnas sofre empobrecimento e avanço de espécies invasoras, apontam pesquisadores

  • 12/04/2026
(Foto: Reprodução)
Pesquisadores alertam que fauna no entorno de Furnas sofre com espécies invasoras O entorno do Lago de Furnas, em Minas Gerais, abriga uma diversidade significativa das faunas do Cerrado e da Mata Atlântica, mas apresenta sinais claros de empobrecimento ambiental, apontam pesquisadores. A biodiversidade da região é marcada por contrastes: é rica, mas fragmentada; resistente, mas sob pressão constante. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram 📺 Durante duas semanas, o g1 Sul de Minas e a EPTV percorreram o Lago de Furnas na expedição especial “Travessia das Águas”, que mostrou a dimensão, a importância econômica e as histórias de quem vive da água em torno do maior reservatório de água doce do Sudeste e um dos maiores do Brasil. Além das reportagens especiais no portal e de conteúdos exibidos nos telejornais da EPTV, foi possível acompanhar os bastidores da expedição em um diário de bordo em tempo real. Inserido na bacia do Rio Grande, o sistema de Furnas está originalmente em uma região de alta biodiversidade. “A fauna aquática é muito rica, com grande diversidade de peixes, insetos, aves, anfíbios e mamíferos ligados à água”, afirma biólogo Wagner Martins Santana Sampaio, doutor pela Universidade Federal de Viçosa e responsável técnico da ONG Idesa - Instituto de Desenvolvimento Econômico e Socioambiental. Em uma área de 1.440 km² de extensão, o lago atinge 34 municípios e abrange dois biomas importantes, tendo uma fauna bastante diversificada incluindo animais emblemáticos como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e a onça parda, e cerca de 350 espécies de aves. O lobo-guará é um dos grandes mamíferos que formam a fauna da região atingida pelo Lago de Furnas. Leonardo Bordin/iNaturalist Algumas espécies consideradas mais sensíveis, como grandes predadores e animais que precisam de áreas extensas e preservadas, tornaram-se raras ou desapareceram localmente, como a onça-pintada e a anta. “Esses bichos foram desaparecendo ao longo do tempo, por pressão de caça, perda de habitat pelo avanço da agropecuária e fragmentação das áreas naturais”, explica o professor Vinícius Xavier da Silva, do Instituto de Ciências da Natureza (ICN), da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG). Entre os animais ainda presentes, de acordo com os estudiosos, estão predadores como a jaguatirica e o jaguarundi, além de espécies conhecidas, como capivaras e tatus. Mas, a simples presença desses animais não garante a preservação das suas populações "A gente não sabe a o estado de saúde dessas populações, se elas são viáveis no longo prazo. Esses bichos estão se virando por aí", alerta o professor Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, também do ICN da Unifal. 🐠🐯🦆 Alta biodiversidade - região é inserida em área de do Cerrado e da Mata Atlântica, com cerca 350 espécies de aves, presença de mamíferos emblemáticos como lobo-guará, tamanduá-bandeira e onça-parda e 65 espécies de peixes. ⚠️ Empobrecimento ambiental - espécies mais sensíveis e de grande porte tornaram-se raras ou desapareceram localmente, como a onça pintada, a anta e a piracanjuba. 🔄 Homogeneização da fauna - permanência de espécies mais generalistas e adaptáveis, muitas exóticas, inseridas na região pela interferência do homem. O diagnóstico sobre a evolução da fauna da região, no entanto, é afetado pela falta de dados antigos. Na época do alagamento, a legislação era diferente e não havia exigências como licenciamento ambiental ou estudos de impacto. “A obra era analisada apenas do ponto de vista técnico e financeiro. Não se pensava em compensação ambiental”, explica o professor Rogério. O g1 procurou o Ibama para saber quantas espécies existem na região, mas não obteve retorno. Empobrecimento e generalização Cerca de 350 espécies de aves habitam a área do Lago de Furnas Lucas Soares/g1 A interferência humana é o maior modificador da natureza da região. Além da própria barragem, outros fatores ampliam os impactos sobre os habitats naturais dos animais, como o uso desordenado do solo, com desmatamento de matas ciliares e agricultura intensiva, a poluição e o lançamento de esgoto. Espécies como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira são vistas com menor frequência. Em contrapartida, animais mais adaptáveis, como o cachorro-do-mato e o gambá, tornaram-se mais comuns. “Ainda há muitas espécies, mas o que a gente observa é uma homogeneização. Permanecem aquelas mais generalistas, menos exigentes”, explica o professor Vinícius. Outro fator de pressão sobre a biodiversidade é a presença de espécies exóticas invasoras que vêm se estabelecendo na região. Entre os exemplos estão a rã-touro e a cobra-do-milho, originárias da América do Norte. “São espécies oportunistas, que competem com as nativas e podem causar desequilíbrios”, afirma Vinícius. Segundo o professor, uma vez estabelecidas, essas espécies são praticamente impossíveis de erradicar. Até animais domésticos, como cães e gatos, têm impacto direto sobre a fauna silvestre, especialmente sobre aves e pequenos mamíferos. Há ainda o problema da introdução de primatas fora de sua área original, como o mico-estrela, que sai do cerrado e cruza com outras espécies da Mata Atlântica, que pode resultar em híbridos e causar desequilíbrios ecológicos. LEIA TAMBÉM: Engolida pelas águas de Furnas, cidade mineira se reconstrói e busca futuro além da hidrelétrica no turismo ‘Trancosinha’ mineira: conheça o vilarejo no Lago de Furnas que aponta como novo roteiro turístico impulsionado pelas redes sociais Piscicultura, espécies exóticas e poluentes alteram ecossistema do Lago de Furnas; veja os riscos à água e à fauna Diretor Gabriel Villela transforma casa histórica às margens de Furnas em refúgio criativo do teatro brasileiro Conheça 'Gilda', a garça que criou rotina com dona de pousada e aceita peixe na mão no Lago de Furnas Pesca no Lago de Furnas sustenta famílias e impulsiona turismo, mas enfrenta desafios no Sul de Minas Do camping à lancha: 5 rotas para explorar o Lago de Furnas e aproveitar o melhor de cada região Casa no meio da água? Flutuantes viram 'point' e transformam o Lago de Furnas em novo polo de experiências turísticas Furnas: lago criado para ser ‘caixa d’água do Brasil’ tem 11 vezes o volume da Baía de Guanabara e 'cidades submersas' Fragmentação da vegetação é um problema Outro fator que contribui para a diminuição da fauna é a fragmentação ambiental. Áreas contínuas de vegetação deram lugar a pequenas manchas isoladas, que funcionam como refúgios para os animais, mas impedem o seus deslocamento, o que os deixam isolados, reduzindo a diversidade genética e aumentando a vulnerabilidade a doenças. “Esse processo leva à chamada homogeneização biótica, que é nivelar por baixo. Restam apenas espécies mais generalistas, que são mais flexíveis”, explica Rogério. Mesmo assim, esses fragmentos são fundamentais para a sobrevivência dos animais. Como solução, o professor destaca a criação de corredores ecológicos e a preservação de áreas de vegetação ao redor do lago. Fauna aquática recebeu grandes predadores e perdeu espécies nativas A piracanjuba que era um peixe comum na Bacia do Rio Grande, já não é tão vista após a criação do Lago de Furnas Márcio de Campos A fauna aquática também passou por uma mudança significativa com a construção da hidrelétrica e a formação do reservatório. Antes, o ambiente era composto por rios com corredeiras, cachoeiras e trechos de remanso, formando uma diversidade de habitats que sustentava diferentes espécies. Com o alagamento, esse mosaico foi substituído por um grande lago, mais homogêneo. “Essa simplificação do ambiente gera prejuízos para a biodiversidade”, explica Wagner. A mudança afetou principalmente espécies migradoras, como grandes bagres e peixes de valor econômico, que dependem de longos trechos de rios para completar seus ciclos de vida. Com a barragem, essas rotas foram interrompidas. Peixes como pintado, piracanjuba e pirapitinga deixaram de ocorrer dentro do lago e passaram a se concentrar em trechos abaixo da barragem ou em afluentes ainda preservados. Em alguns casos, houve desaparecimento local. Hoje, o lago abriga 65 espécies de peixes. Destas, 14 são exóticas, ou seja, não ocorriam originalmente na região. A proporção, superior a 20%, acende um alerta. “Esse número, por si só, já indica que uma série de impactos ambientais ocorreram”, explica o professor Paulo dos Santos Pompeu, do Departamento de Ecologia e Conservação da Universidade Federal de Lavras. Há presença de organismos vindos de outras regiões do país, como camarões da Amazônia e do Pantanal, além de peixes predadores, aponta um estudo coordenado pelo professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Marcos Calisto, em parceria com a Axia Energia, responsável pela Hidrelétrica de Furnas. Peixes como a tilápia, mais adaptados a águas paradas, encontraram condições favoráveis e passaram a dominar o ambiente. Predadores de topo, como o tucunaré, intensificam ainda mais o desequilíbrio ao reduzir populações de espécies nativas. A introdução destes peixes exóticos, ocorre predominantemente pela ação humana. Elas chegam ao reservatório principalmente por três vias: a pesca esportiva, que muitas vezes introduz peixes deliberadamente; a aquicultura, com escapes acidentais dos peixes criados em gaiolas; e até o descarte inadequado de peixes de aquário. As espécies exóticas se estabelecem e passam a competir com a fauna local. Em alguns casos, criam novas relações ecológicas que não existiam originalmente, alterando a cadeia alimentar. “Sempre que uma nova espécie entra, a comunidade local precisa se reestruturar e isso pode levar até ao desaparecimento de espécies nativas”, destaca Pompeu. Tucunaré, peixe típico da região Norte do país se instalou no Lago de Furnas TONI MENDES /TG Hoje se identifica uma divisão entre as espécies dentro do perímetro do lago. Peixes típicos de rios, como dourado, tabarana e piaparas, se concentram nas áreas mais próximas às entradas dos rios, enquanto outros mais adaptados a ambientes parados, como o tucunaré e a tilápia, predominam próximo à barragem. "Esse fenômeno cria um gradiente ambiental dentro do reservatório: quanto mais perto da barragem, maior o impacto e a presença de espécies não nativas; quanto mais próximo dos rios, mais características naturais ainda resistem", explica o professor. Segundo Pompeu, o impacto da barragem foi “muito drástico” do ponto de vista ecológico e o lago passou a abrigar um número reduzido de espécies, com predominância das mais generalistas. “A gente eliminou um ambiente que levou milhões de anos para se formar e que sustentava uma biodiversidade altamente especializada”, afirma. Áreas conservadas e boas iniciativas Serra da Boa Esperança é uma das áreas mais preservadas da represa de Furnas Chico Escolano / TG Os estudos apontam que a biodiversidade sofre em áreas com a degradação e o equilíbrio desse ecossistema depende diretamente das ações de conservação adotadas nos próximos anos. Ainda há áreas consideradas estratégicas para a conservação, como o Parque Estadual da Serra da Boa Esperança. Por ser uma unidade de conservação, o local mantém melhores condições ambientais e funciona como refúgio para diversos animais. “Esses espaços são essenciais, mas já não representam o ambiente original completo. Mesmo ali, algumas espécies já desapareceram”, pondera Vinícius. Há também iniciativas não institucionais, como reservas particulares e projetos de ONGs que buscam proteger remanescentes de mata. Ainda assim, o cenário futuro preocupa. “Se nada for feito, a tendência é de empobrecimento da fauna. Se houver mais cuidado e preservação, algumas espécies ainda podem se recuperar. Mas é preciso agir. O risco de desaparecimento continua alto para muitas delas”, alerta Rogério. Tamanduá-bandeira morreu atropelado em estrada do Parque Estadual da Serra da Boa Esperança Reprodução redes sociais/ Parque Estadual da Serra da Boa Esperança Embora o impacto da formação do lago seja irreversível, o pesquisador destaca que ainda há espaço para conciliar conservação e uso econômico. “Furnas hoje é um ambiente de múltiplos usos, importante para energia, turismo e abastecimento. O desafio é garantir que esse uso seja feito de forma consciente, preservando o que ainda resta da biodiversidade”, diz Wagner. Infográfico - Usina de Furnas em números Arte g1 Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/lago-de-furnas-travessia-das-aguas/noticia/2026/04/12/fauna-no-entorno-de-furnas-sofre-empobrecimento-e-avanco-de-especies-invasoras-apontam-pesquisadores.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

No momento todos os nossos apresentadores estão offline, tente novamente mais tarde, obrigado!

Top 10

top1
1. Deus Proverá

Gabriela Gomes

top2
2. Algo Novo

Kemuel, Lukas Agustinho

top3
3. Aquieta Minh'alma

Ministério Zoe

top4
4. A Casa É Sua

Casa Worship

top5
5. Ninguém explica Deus

Preto No Branco

top6
6. Deus de Promessas

Davi Sacer

top7
7. Caminho no Deserto

Soraya Moraes

top8
8.

Midian Lima

top9
9. Lugar Secreto

Gabriela Rocha

top10
10. A Vitória Chegou

Aurelina Dourado


Anunciantes